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27 fevereiro, 2008

De Timor a' India: o mundo entre os dedos

Um dia decidi sair do bairro dos professores sozinho e nao apanhar taxi. Decidi ir ver cada cara e casa dessa cidade, sem complexos, sem medo.
Acabei encharcado de chuva e debaixo de uma palhota com dois velhos que esperavam o tempo passar com vista para o mar. Ainda me lembro de sentir as gotas nas pocas e nas varitas da cabana.
Timor nao esta nos restaurantes, professores ou embaixadores. Timor esta em cada maozada de terra que nos leva a essa gente de sorrisos.
Nesse dia enchi a mao dessa terra e senti-a entre os dedos.
Hoje vou fazer o mesmo aqui em Varanasi, no norte da India.












11 fevereiro, 2008

Ai timor...

O lider dos maus (e o heroi das criancas), Reinado, apanha o lider dos bons (e o heroi dos aussies), Ramos, a fazer jogging...

Segundo me lembro, a casa do Ramos eh bem perto da Dona Fina, isto eh, a cena deve ter sido ali na praia para onde as gentes vao. Mas foi la para as 7 da manha.

O Reinado morreu. Se o Ramos morre eh que eh bem pior... vamos todos cantar com os cinco do oriente.

Considero abismal a dificuldade de analise da situacao. Quem fez o queh e para queh? E isto em timor, pais pequeno e jovem. Para mim eh um excelente exemplo das enormes dificuldades da analise politica em geral.

Quem fez o que, para que e porque? E vale Bush, Chavez, Socrates, Soharto, Mandela, ate' o Ghandi (cujo museu fui ver ontem).

Eh impossivel saber. Entender a politica eh mais dificil que entender a propria natureza humana porque a primeira eh uma consequencia a muito longo prazo da segunda. O que me leva ao: se El Che tivesse lido Freud nao teria havido revolucao.

10 maio, 2007

Dispersão ou Fim

Sobre Timor não sei mais o que escrever e por isso acabo aqui o blog.
Falta uma semana para partir em viagem pela Indonésia, Tailândia, Malásia. Um mês que prevejo saboroso.

Para terminar, deixo uma escritazinha automática de há já alguns meses. É a despedida perfeita. Depois (ou até antes) de ler isto, ninguém vai ter vontade de voltar aqui (ihihihi).
Os error de ortografia, sintaxe e semântica são do leitor!


As rugas da mão voam
e o sol venta nas sementes
em mim não vai ninguém
dor

hoje terei poema
terei poema hoje
poema hoje terei

deslizo, grito, desligo, estruturo, terapizo
terapizio de terapizamentos,
rescubro as palavradas do costumizamento aldrabado
pois aldrabadamente prosseguirei a minha tarefa
poemização destruturadamente ambulatória

fogueirização do lume
lumeniscentização aereozaamente comedida
jarrar no sulco rugozamente
chavenar-te-ias se eu te substantiva-se?
guatemalar-te seria embeber-te em continentalismos
oceanificar entranhamente a onda
areia cavalarizada com crinamentos de entes azulejizados em azul
cascolarizar ou atapetar?
SEMPRE TE ATAPETAREI A VIDA, MEU AMOR!

de gosmice em gosmice vai a galinha à fonte
vais lá tu ou enche a galinha o papo?
ou te calas ou tuizo-te já
vozificar em gritos aquilo que só uma estrutura neuronal descreve

o que sente a minha consciência quando se sente?
PAREI
sinto-me! este sentir... eu, dentro! no cérebro. tás a ver, Luís?
SOU EU! estrutura neuronal.... mas com sentir!
palavras? HAHAHAHA
PALAVRAS LEVA-AS A SEMIOLOGIA!
etimologar-te-ei esse sentir todo!

Amorizaficamente, comprometo-te a fazer a fazificação das coisas de uma forma coisamente credível sem deixar de debilitificar
sem deixar de conseguir ter... humidificação controversa, amarela até!
nas nozes que são sementes bate o vento e o sol
e as rugas do velho persistem, eu.
será o deja vu supremo, quando eu for as rugas da minha mão
e a minha vida for a imagem.
uma coisa é mais que uma imagem? viverá a imagem entre a coisa e o conceito?
a imagem é o inconsciente que vive entre as coisas e as palavras.
conceito é uma palavra.
uma coisa é uma coisa.

quando a lágrima que cair não valer...

PORQUÊ DESESTRUTURAR?
Houve tempos de estrutura dentro de mim. Eu todo era estrutura. Tal como Foucault põe a sociedade estruturada em cima de gel. Também eu era assim.
Um dia fiz o que Foucault faz. Arqueologizei-me. Começou a desestruturação ... e com ela a destruição, a descontextualização e a desintegração... do eu, e de mim. Cheguei a Sísifo e chorei que queria voltar. Mas a pedra voltou a descer e era só aquele som do vento que bate nas pedra e canta como vozes de mortos a rir.
Um processo lento de hospitalização intelectual e emocional começou. Depois de descer em lama e não ver fundo, decidi sem outra opção e em pânico, edificar-me outra vez, em estrutura!
O objecto foi crescendo devagar até o acabamento amor chegar.
Agora, o objecto que cresceu, digo, é semelhante ao outro. Menos rígido. Ainda em fase de mobilação. Com aquela mobília que cai com tremores de terra.
Sorriso, móvel não resistente a tremores de terra. Na queda, lenta, em trémulo, range gritos de socorro. O bafo formando uma nuvem que, por razões de nada, amparam-no.

PORQUÊ DESESTRUTURAR?
Sou o edifício erguido por um grupo de construção composto por imbecis! Todos corruptos à causa da construção. Todos querem(os) voltar à cave. Todos sabem que a estrutura é falsa...

PORQUÊ DESESTRUTURAR?
ACABARAM-SE as fossas e as lamas. Hoje somos homem vestido de rochedo de mar calmo! Hoje construimo-nos com credo! Hoje acreditamos na autenticidade da felicidade. AHAHAHAHA. PROTEGAM-ME! AMA-NOS! E se tal o fizeres terás o objecto monumental, um colosso erguido ao ar. Espelho. Estátua.

o dedo mindinho envolto em nuvens
amarelado

e no fundo as vozes cantam:
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

02 maio, 2007

O Mestre

Passei a manhã a ler o Guardador de Rebanhos. Passados tantos anos de o ter lido pela primeira vez, vejo a minha filosofia toda aqui: no Mestre Caeiro. O meu panteísmo é o dele. O meu olhar difuso também. A minha visão da morte, a dele.

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XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
(...)
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
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E depois o velho 49, que nunca é demais mostrar e ler ... muito devagar:
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XLIX
Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.
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01 maio, 2007

o medo

Incêndio
Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão.

al berto in Horto de Incêndio
http://luisramos.net/poetry/um_so_poema.php#alberto

Os Olhos na Morte



O Ramelau
O Ramelau (2960m) era o ponto mais alto de Portugal antes de 74. Conta a tradição turística em Timor que ao Ramelau se vai pela noite dentro e se chega ao seu topo, depois de várias horas de jeep e 2 horas de caminhada, ao nascer do sol. Do topo do Ramelau vê-se a ilha toda, vê-se a Austrália, uma panóplia de outras ilhas, vê-se, há quem diga, Sidney.
Conta a lenda que na montanha vivem "homens pequenos" que ninguém viu. Ver um duende na montanha é uma bênção (os Timorenses são Católicos Animistas, ou algo semelhante). Conta também o velhote que quando se sobe ao Ramelau não se pode perguntar quanto tempo falta para chegar. Porque levará mais tempo. Quando se sobe ao Ramelau não se pode falar, porque levará mais tempo.
O Jantar foi no Restaurante Sara às 19h. Tristes condições a deste restaurante. A cozinha com um tecto de zinco e teias de aranha; à casa de banho ia-se de lanterna; esperamos mais de uma hora pela comida que veio fria. Como em tudo aqui, nas entrelinhas desta ineficiência terrível vinham os detalhes saborosos todos: a simpatia da cozinheira, o tradutor de chinês para tétum, o velhote que conta as lendas e nos leva à padaria com o melhor pão do país, o rótulo da garrafa de sumo de uva, etc. Como íamos escalar o monte e tínhamos comido pouco durante o dia marcamos outra refeição para as 23h na Pousada de Maubisse. O primeiro jantar atrasou-se e fizemos duas grandes refeições num espaço de 3 horas.
Depois do jantar queríamos descansar. 2 horas de sono para depois fazermos os 28kms que nos levariam a Hatobuilico e ao início da caminhada. Os quartos eram caros para tal e dividimo-nos entre a sala de estar da pousada e o jeep.
O céu estava limpo e a pousada era rodeada de montanhas por todos os lados. Fez-me lembrar Flaine em França (uma estação de ski).
Primeiro fora e depois dentro do jeep a lua e as estrelas penetravam-me. Antes de dormir falei da noite em que dormi sozinho ao relento no Gerês, no Prado do Teixeira. Lembrei o estado de espírito de então: eu sozinho com o Guardador de Rebanhos na memória. Ali, em Maubisse, era quase igual: as infra-estruturas humanas são tão pobres ou insignificantes que até permitem o "domínio da natureza".
Acordamos no jeep e seguimos caminho. Éramos 6 mais o guia. 10kms de estrada boa (para o nível Timorense) e 18kms de estradão para Hatubuilico. No início do estradão em péssimas condições vimos cavalos selvagens. Lembro-me que estava a pensar como perguntar a idade ao nosso guia que não falava Português. "ó nia iha tinan?" ou "ó iha tinan hira?". 20 era a resposta à pergunta que não cheguei a fazer.

A Queda
Lembro-me de fixar os olhos na berma da estrada e na roda do jeep que escorregava para baixo. Lembro-me de levantar os braços para proteger a cabeça. Lembro a primeira e a segunda pirueta que o jeep fez ribanceira a baixo. Lembro-me de pensar que aquilo era tão real. Lembro-me de pensar, que, como eu suspeitava, morrer não deve ser nada de especial, só um grande susto e já está.

O Despertar
Quando acordei não sabia onde estava, a pergunta que me fazia era: "estávamos a falar de quê?". Não me lembro sequer em que posição estava. Lembro-me de me levantar e voltar a cair de tonturas. Lembro-me de ouvir o Joaquim a gritar lá em cima: "SOCORRO". Deste despertar lembro-me como de um sonho vago. Levantei-me e, sem ver o que tinha, decidi imediatamente (aqui ainda estava em modo corajoso), verificar todos os meus colegas. Estava muito perto do jeep. Tentei abrir as portas, só algumas abriam. Lembro-me de percorrer os estofos do banco de trás e de esperar encontrar um corpo. Neste exacto momento... a morte do outro. Lembro a exacta textura dos estofos e a minha mão no escuro a percorrê-la em busca de um corpo morto. O jeep estava vazio. Das 7 pessoas no jeep, todos foram cuspidos (ou atiraram-se). Felizmente ninguém levava cinto. O jeep estava muito amassado. Ainda percorri a mala e juntei o máximo de roupa dentro da minha mochila. Eu já estava com frio e estava descalço. Encontrei uma das sapatilhas e calcei-a (ainda não percebi se fiz isto imediatamente depois de acordar, depois de ver o João com frio, ou mesmo mais tarde, não me lembro).
Logo acima do jeep estava o João, deitado de costas para cima, não se mexia e dizia ter dificuldades em respirar. Ele falava e concordamos (se bem me lembro) que eu devia ir ver os outros. O terreno era muito inclinado e com bastante vegetação. Subi mais um pouco e vi a Verónica deitada no chão a queixar-se muito. Tinha um olho baço (sem íris) e dizia não conseguir ver nada desse olho. Parecia não ter nada de muito grave na cabeça mas parecia ter algo nos ossos. Fiquei algum tempo para a acalmar e repeti a frase em que não acreditava mas que me acompanhou toda a noite: "tem calma, vai acabar tudo bem". Decidi continuar a verificação. Subi mais um pouco rapidamente e comecei a sentir o meu tornozelo (provavelmente torci o pé nesta caminhada e não no acidente). Vi a Sara que dizia ter a clavícula e um pé partido; e se queixava do frio.
As tonturas começaram e foi nestes instantes que a consciência do meu estado físico e o medo começaram. Tinha as mãos cheias de sangue (dois cortes na cabeça que a Sara disse, erradamente, que eram enormes) e o pé a doer. Levantei as calças e assustei-me: um buraco de 1cm de profundidade ao lado da canela. Estava com frio. Deite-me ao lado da Sara e tentei esperar que as tonturas passassem. O terreno era muito inclinado e estávamos sempre a escorregar para baixo... e a forçar os pés. Tínhamos ambos o tornozelo torcido.
Entretanto ouço a Ana a falar lá de cima da estrada. "O Joaquim está muito mal". Fiquei assustado, pensei que este mal era muito pior do que o estado em que ele realmente estava. Já não o via vivo e fiquei com medo.
Neste intervalo de tempo, cerca de uma ou duas horas, em que estive com a Sara, apareceram uns timorenses junto de nós. Eu pedi-lhes para irem buscar mais roupa ao jeep: estávamos todos com muito frio (lembro-me que nesta altura tirei a meia que tinha por estar toda molhada). Não me lembro se nesta altura a Sara e a Verónica já tinham os sacos camas ou não, lembro-me de algumas coisas.
- Um timorense disse-me que o autocarro passava ali às 6 e eu comuniquei à Ana em voz alta que estava na estrada (o autocarro não passou);
- Lembro-me que o Marcos (o guia) estava junto da Verónica numa das vezes que lá passei. Parecia em bom estado. Sempre que o vi estava em pé e imóvel como todos os outros timorenses.
- Lembro-me de descer da posição da Sara até a posição da Verónica (cerca de 30/50 metros muito inclinados que fiz com várias quedas ... tonturas e pé torcido), não sei de onde veio o saco cama da Verónica, se ela o tinha ou se os timorenses o tinham, lembro-me de a enfiar dentro do seu saco cama e de ela se queixar muito de dores em todo o lado;
- Lembro-me de o timorense que foi buscar as coisas ao carro, ao chegar, apontar para dentro da bolsa da Sara (que tinha telemóveis e tabaco) e pedir o maço de tabaco como recompensa;
- Lembro-me de pedir a outro timorense para levar a minha mochila (que eu tinha enchido com roupas) para a estrada (a Ana tinha dito que o Joaquim estava com frio), e ele pegar na mochila e continuar a fumar o seu cigarro calmamente, só depois de eu insistir é que ele apagou o cigarro e subiu (eram pouco mais de 20 metros inclinados que alguém em bom estado faria em alguns segundos).
Após estes incidentes menos felizes com os timorenses e já de dia levantei-me de perto da Sara e tentei ver se ela conseguiria andar até à estrada. Não conseguia. Concluímos que o melhor seria eu ir à estrada e ver o que se passava com os outros. Assim fui a cambalear, lembro-me que ao subir, por um pouco não perdia o equilíbrio e caia para trás.

Na estrada o Joaquim (que saltou do jeep logo no início da queda) estava deitado de costas para cima, testa no chão e a mão no cimo da cabeça. À volta da cabeça uma toalha vermelha de sangue e a t-shirt dele também: tinha um corte gigantesco na cabeça. A Ana era a que estava em melhor estado de todos e queria mover-se, ir andar, procurar alguma ajuda. À volta deles duas fogueiras. Em volta das fogueiras aproximadamente 20 timorenses, muito próximos deles.
Entretanto a Ana encontrou alguém no grupo de timorenses que sabia que a uma distância de 1 hora a pé havia um sítio com rede telefónica. Ela e alguns timorenses lá foram em busca da rede telefónica.

O Desespero
Eram talvez 7 da manhã, 4 horas passadas do acidente, e ainda não tínhamos nenhuma garantia de que alguém aparecesse.
Deitei-me ao lado do Joaquim e tentei descansar. O Joaquim estava muito calmo, já próximo da exaustão suponho. Lembro-me de espreitar rapidamente a sua ferida para ver onde é que ele poderia carregar. Felizmente só vi uma parte do corte e aconselhei-o a carregar nessa zona mais frontal. Eu estava uma lástima, estupidamente tinha feito todos os trajectos a correr e nesta fase já não me aguentava sentado.
Lembro-me de estar a tentar dormir, descansar, relaxar, qualquer coisa, e sentir os timorenses à minha volta, MUITO perto mesmo. Os pés deles por vezes tocavam-me. Todos conversavam uns com os outros em tons que me pareciam alegres. Riam-se. Eu pedi para fazerem silêncio para podermos descansar, eles continuavam. Pedi 10 vezes e o resultado eram períodos de 10 segundos sem barulho.
Entretanto alguns timorenses começaram a trazer os outros para cima: primeiro o João (ou será que foi ele que subiu?), a Sara e depois a Verónica. O Marcos (o guia) também já estava cá em cima. Em pé e misturado com os outros timorenses. Todos estavam mais ou menos nas mesmas condições que há 5 horas atrás. Sim, eram 9 da manhã. 6 horas passadas e só a esperança do telefonema da Ana.

O Resgate
Às 9:30, pelo meio dos timorenses, um jeep da UN com o Ricardo a conduzir (Sargento Patrocínio da GNR). A operação de resgate começava.
Primeiros socorros prestados pela GNR Virgínia e dois polícias neozelandeses. Conversações com as autoridades para ver se arranjavam um helicóptero para o resgate. Eu, o Joaquim e o Marcos éramos os únicos com feridas abertas e fomos imediatamente evacuados de jeep para Maubisse. A Ana veio connosco. Os outros, só passado algum tempo, foram movidos de jeep para um terra perto dali para esperar o helicóptero. Às 4 ou 5 da tarde, o helicóptero chegava a Dili com os 3 lesionados (pernas, costelas e suspeitas de lesões de coluna). Nós, em Maubisse, fomos cosidos. Eu em cinco sítios o Joaquim só num mas muito mais longo. Os pontos doeram MUITO, e eu bem sei o que é levar pontos. Juntei mais dois aos 7 ou 8 buracos que já tinha na cabeça (mazelas do hóquei em patins). O Joaquim nunca tinha aberto a cabeça: grande calma para principiante com pontos desta dureza!
Do hospital para o helicóptero fomos de jeep, muito perto. À chegada ao helicóptero fomos imobilizados (só agora?).
No helicóptero, um MI8 de fabrico soviético, ia dentro de uma maca com cinturões que mal me deixavam respirar, a soro, gola daquelas bem grandes em que a ponta atrás estava exactamente a bater nos golpes que tinha na cabeça. Em cima de mim, a cerca de 20 cms dos olhos, uma barra de ferro e uma outra maca com o Marcos que parecia que ia mesmo cair-me em cima.

O Resultado
Encontramo-nos no hospital de Dili:
- A Ana com arranhões profundos nas costas;
- Eu com dois cortes na cabeça, dois buracos na perna, um corte profundo no dedo e um tornozelo torcido;
- O guia com um corte na cabeça e um pulso deslocado;
- O Joaquim com 29 pontos na cabeça e 2 ou 3 no tornozelo;
- A Sara com a clavícula partida e a tíbia fissurada;
- O João com 4 costelas partidas;
- A Verónica com algumas costelas partidas, os olhos bem negros das cabeçadas e alguns pontos na perna;
Todos com arranhões e pisaduras em tudo quanto é canto do corpo. Algo que temos em comum é a montanha russa da morte em forma de jeep: tantas piruetas demoram uns dias a passar. Restam-nos as tonturas e o cansaço cerebral.

Os Disparates Associados
Hoje, ao pensar em tudo, rio-me muito. A Verónica, a que mais me assutou pelo seu estado, também já se ri. Para os que acreditam em Deus, este riso sou eu a gozar com Deus e a dizer-lhe: "És tão burro, como é que me podes deixar ser tão sortudo?"
Eu nunca tive medo da morte e agora que a vi, continuo a não ter. Eu sempre tive medo da mutilação corporal e agora, continuo a ter.
Desculpem-me os que não compreendem mas eu sempre achei, e continuo a achar, a morte uma coisa boa. Um sono... o descanso merecido. Só é preciso perder os sentidos no momento certo, como aconteceu neste acidente. O despertar foi como acordar de manhã... para uma nova vida, sempre igual mas ainda mais feliz.

30 abril, 2007

Os olhos na morte: prelúdio e resumo

Estava a tentar inventar um título para o meu post pos-quasi-mortem e lembrei-me do título do livro do Herberto Hélder: A colher na boca. É incrível como uma imagem tão simples (a colher na boca) me pode dizer tanta coisa (após ler alguns poemas do livro e entender o estilo de ideias sugeridas).
Isto dava um longo post mas deixo só a ideia mais simples e importante para mim. Uma colher numa boca é banal e nem pensamos nisso por fazermos isso regularmente e utilitariamente, mas se pensarmos nesse acto artisticamente, ou como um acto artístico (são coisas diferentes) tudo se altera e começamos a ver os detalhes, as emoções, os significados, as tensões, tanta coisa... há o "pôr a colher na boca" e o "pensar no pôr a colher na boca".
A (pobre) analogia refere só a distância abismal entre o falar da morte e o ver a morte.

Está tudo óptimo: tenho duas costuras na cabeça de 2 e 3 pontos; duas na perna esquerda de 2 e 3 pontos; uma no dedo indicador esquerdo de 2 pontos; um entorse no pé esquerdo; arranhões em tudo quanto é canto do corpo; umas dorezinhas de cabeça; e uma alegria imensa cá dentro (daquelas muito simples que quando as vemos nunca percebemos muito bem), que me deixa dizer-vos: ESTOU VIVO!

Ah, para quem não sabe a história é a dos 6 professores que fizeram os "500metros jeep" modalidade "montanha a baixo" estilo "rebolanço".
Recusei a entrevista telefónica da TVI para vos dar o exclusivo, lol.

AmorTe

As portas da morte tornaram-se uma fonte de inspiração para tudo. E nos últimos dias tenho pensado em "coisas que nunca tinha pensado" a taxas muito mais elevadas que o normal. Poderá ser do traumatismo craniano, esperemos que não.
O tema mais interessante é a morte em si, mas a crueza da realidade não inspirou o poeta romântico que há em mim. Por exemplo, o seguinte poema (de categoria: Brutal), neste contexto, não faz qualquer sentido:
"Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera"
do Ruy Belo

O tema que mais me tem interessado é a relação entre o amor e a morte. A razão para tal é que as pontes entre as razões e a morte são, para mim, rígidas, estruturadas, representam uma solução em si. E as soluções implicam problemas e definições e estruturas específicas. As pontes entre as emoções e a morte são infinitas, subjectivas, ou feitas de cordas... bambas.
Pensar na morte de uma forma desestruturada, afectiva, sentimental, é, em geral, perigoso, entregamo-nos aos sabores de todas as ideias negativas associadas à morte. MAS, ao entregarmo-nos emocionalmente ao assunto da morte com o amor em nós, temos a segurança de evitar as negatividades inerentes ao assunto.

"Era uma vez um reino a que chamavam o 'Reino da morte que chega em 5 minutos'. Nesse reino todos viviam, e tinham crescido, com uma crença (que se renovava exactamente todos os 5 minutos): a minha morte chega em 5 minutos. Isto é, ninguém morria, mas toda a gente achava, e tinha crescido a achar, que ia morrer nos próximos 5 minutos."
Imaginem um livro que comece assim. Se eu o escrevesse, hoje escreveria o capítulo basilar, o capítulo do amor. Que formas tomava a paixão no 'Reino da morte que chega em 5 minutos'?

Bem, não sei bem aonde quero chegar com isto, mas que interessa? E estou cansado para desenvolver (a 'montanha russa da morte' foi há exactamente 48 horas e a cabeça ainda lateja).

24 abril, 2007

Descompressão em clima de insegurança

Lamentavelmente não se vê bem mas:

Eram 5 da manhã, em baixo da luz lê-se Palácio do Governo. Ao centro, eu a fazer o pino. A cereja seria, mesmo ali no canto superior direito, o guarda nocturno que mais parece um snipper escondido entre as arcadas do primeiro andar.

21 abril, 2007

Carta ao leitor

Ex.mo Sr.,
Venho por este meio informar vossa excelência que me poderá por a vista em cima no próximo dia 18 de Junho pelas 10:20 da manhã na cidade do Porto, mais precisamente no hall de chegadas do aeroporto Francisco Sá-Carneiro.
Sem mais de momento e com os melhores cumprimentos,
Luís de Ramos

20 abril, 2007

Chuva

Ao cair da noite cheguei de uma corrida de talvez 10kms ao longo da marginal. Ao chegar, torci a camisola do suor. O calor apertava. Não podia sair. Os mosquitos atacam ao fim da tarde. E não aguentava o ar condicionado.
De repente, começou a chover violentamente, como nunca tinha visto. Fui lá fora e fiquei a olhar a chuva. Lentamente, fui-me aproximando da água e, aos poucos, pareceria natural pôr-me debaixo daquele chuveiro enorme. Esperei... esperei. Para quebrar o impasse social alguém apareceu debaixo da chuva. Eu juntei-me imediatamente.

A chuva, como o calor, dilata os cheiros.

Em tronco nu, de braços e peito abertos ao céu ... dador de chuva. Fechei os braços e esfreguei a cara molhada. Baixei o corpo e deixei a chuva massajar-me as costas. O tempo desacelerou, esqueci o meu redor e comecei a ouvir:

"Embora lave o medo
que há do fim
a chuva apaga o fogo
que há em mim
Ouço a voz de quem
me quer tão bem
E fico a ver se a chuva
a ouvirá também..."

19 abril, 2007

Coisas

Internet
Alguém me disse que o governo de Timor Leste tem no total 13Mbps de largura de banda para acesso ao backbone internacional, isto é, a ligação de todo o país à internet é de 13Mbps. Ora, destes 13Mbps: 6Mbps são reservados ao governo e os outros 7 para uso geral, isto é: toda a gente em Timor. Quanto é que se consegue ter numa casa Portuguesa? 4Mbps?
Como tenho andado a ensinar aos meus alunos de redes, 13Mbps são pouco mais que 13300 kbps.
Na universidade temos uma rede local com cerca de 40 computadores que partilham uma ligação de internet de 256kbps.
No bairro temos uma ligação à internet de 64kbps que é partilhada por todos os professores.
Ora vamos lá falar de Quality of Service (QoS). O QoS é um serviço que ajuda a garantir que todos os utilizadores tenham a largura de banda que subscreveram. Em Timor não deve haver isso. Lembram-se dos modems que se usavam em Portugal há uns anos? Esses modems tinham velocidades de 33kbps e depois de 56kbps, aqui temos um de 64kbps. Como não há QoS (suponho), esta ligação aqui em Timor é mais lenta que esses modems em Portugal. 13Mbps dá para 200 ligações de 64, e 5 eu já as conheço.
gmail.com ao meio-dia: 30 segundos para poder por a password.
google.com? 10 segundos para carregar!
Hoje, pela primeira vez desde que cheguei vi umas páginas que não as de sobrevivência...

Supermercado
Em Dili os supermercados são muito caros. Mais caros que em Portugal. Se comprarmos produtos chineses ou indonésios talvez seja um pouco mais barato, mas a qualidade do produto é muito baixa. Por exemplo, parece ser normal os pacotes de massa virem com bichos lá dentro. O meu preço favorito é o dos pacotes de batatas fritas australianas (semelhantes às Lays) com o maravilhoso preço de 3.20 dólares.

Restaurante
Nos restaurantes em Dili arrisca-se a saúde. Vários, senão muitos, de nós já ficaram doentes. Se em Portugal ainda é tema a higiene dos restaurantes imaginem aqui. Em restaurantes com condições mínimas (seja lá o que isso for) as refeições rondam os 10 dólares (e vão até aos 20). Noutros, com menos condições, as refeições podem sair por 5 dólares. Mas atenção, aqui assumem que o menu de 5 dolares pode vir com brinde: "cha_me_mos-lhe ape_nas" irritação intestinal!

Ruas
As ruas em Dili não têm passeios. Na zona central têm-nos mas destruídos ao ponto de ser mais prático andar pela estrada.
Nas ruas do centro, entre a universidade e o bairro, vêem-se e ouvem-se nos passeios os omnipresentes vendedores de cartões de recarregamento de telemóveis. Consta que ganham uma fracção do valor. E os vendedores de jornais. E os putos vendedores ambulantes de fruta. Ah, e os ?roda-tolo? (triciclos com bancada de produtos) que vendem tabaco, bebidas e de tudo um pouco. Entre o bairro e a universidade (+ou- 400metros) um professor é abordado cerca de 10 vezes. Odeio ignorá-los, mas outra opção é impraticável.
Nas ruas de Dili abundam os não-faz-nada. Gostava de conhecer a história destas personagens que ficam/param/estão numa beira da estrada, num banco da marginal, numa esquina da estrada à sombra de um guarda-sol, à entrada do hotel, ou à porta do banco.

Edifícios
Em Dili, os edifícios com bom aspecto (nível europeu) contam-se pelos dedos das mãos. Depois há umas dezenas que também o seriam se não estivessem velhos, abandonados ou mesmo completamente queimados. No fundo da tabela de construções que poderão ser chamadas edifícios há as casas de tijolo, pequenas e em mau estado, que abundam na cidade. Ah, e há o não-sei-quê tower que tem 4 andares e é provavelmente o mais alto da cidade. Quantos elevadores haverá em Timor Leste? Fora de Dili quase não há edifícios à excepção de uns quantos nas outras "grandes cidades" deste pequeno país.

Refugiados
Vim jantar ao Hotel Timor. Este é o melhor hotel da cidade onde uma noite custa 150 doláres. Aqui vivo sempre um pouco o espírito colonialista. Este é um sítio de brancos, um sítio de portugueses. Aqui há um racismo exposto. Ou sou só eu com visão turva. Não obstante, aqui sinto-me bem, as condições são excelentes e faz-me sair um pouco do exotismo do dia a dia.
Saio do melhor hotel da cidade e, mesmo em frente, vejo o jardim que foi ocupado por refugiados. O jardim é uma massa densa de tendas onde centenas de pessoas sobrevivem. Hotel de luxo com vista para gente com fome. Em mim, vejo a indiferença a crescer.


Aponto para os meus pés e para vocês em Portugal.
É muito difícil imaginar a terra connosco na parte de baixo (de pernas para o ar). Por isso:
boa noite aí em baixo!

16 abril, 2007

Segurança em Timor

Como cheguei a Timor uma semana depois do início das aulas perdi a palestra sobre segurança para Portugueses em Timor.
Com o tempo vai crescendo a consciência do nível de segurança cá do sítio. De forma diferente para pessoas diferentes. Nas mesmas situações, uns sentem-se mais seguros ou são mais bravos que outros.

Em Dili, os professores são aconselhados a nunca andarem sozinhos e a nunca saírem do bairro dos professores à noite. Acho que inventei isto... ou foi um processo de indução... que me dizem os meus olhos?

As tropas australianas (sempre de camuflado, colete à prova de bala, capacete e metralhadora) fazem a vistoria de carros e pessoas à entrada de Dili. Nesse sítio, à vinda da praia, fomos parados, mandados para um canto e revistados. Num dia em que fazia uma corridita de casa até à praia cruzei-me com este posto de controlo e disse (a correr, arfar e sem parar): "hello" ao que o militar respondeu: "wassup mate?".
"Os timorenses não gostam de australianos": é senso comum aqui. Eu pareço um Aussie (australiano), se aos meus colegas falam 80% das vezes em português e 20% em inglês. Para mim (se estiver sozinho), esses valores invertem-se. Estando eu sozinho, nunca nenhum Timorense me dirigiu as primeiras palavras em Português.
Grande parte dos taxis que apanho em Díli, e muitos carros que circulam, têm os vidros partidos (em certas zonas da cidade atiram-se pedras aos carros que passam). Há noite é muito difícil apanhar taxis em Dili. Os taxistas têm medo de trabalhar à noite (dito por um taxista).
Em Dili as ruas não têm iluminação nocturna. Durante a noite, a caminho do Hotel Timor para um café, cruzo com um grupo de soldados australianos que patrulham as ruas em formação (duas filas, uma de cada lado da estrada). De arma em riste claro.
Em tempos de eleições recebi uma mensagem da embaixada a aconselhar, por motivos de segurança, a não sair de casa nesse dia.
Nos últimos dias, quando estamos na praia, um ou dois helicópteros militares australianos passam, em voo baixo, mesmo em frente à praia (de 30 em 30 minutos).
Há 4 meses, uma portuguesa levou com uma pedra na cabeça (levava o vidro aberto): 30 pontos, um período de recuperação em que "esteve muito mal" e o estado psicológico alterado até hoje.
Uma noite fomos beber um copo ao AAJ (um dos poucos bares da cidade gerido por um australiano). Chegamos ao bar que estava absolutamente vazio e, encostados ao bar, pedimos umas cervejas. Entre palavras de conversa vejo uma pedra (10-15cms) entrar pela janela aberta ao fundo do bar e deslizar pelo soalho da pista (que estava completamente vazia). Se, por acaso, estivéssemos nas mesas ao fundo...
Estes são os meus factos sobre segurança em Dili.

Eu não tenho medo, e tu?

09 abril, 2007

Três parágrafos de metafísica OU o regresso com olhar difuso



Divagar é tão mais fácil do que descrever! Talvez seja a salvação deste blog. Aqui vai:
Cheguei a casa das férias na região Este de Timor. Se os dias em Dili são intensos, fora de Dili são ainda mais.
Não há tempo para descanso, não há estruturação racional que resista. Aqui, todos os passos são recheados de novidades, de informação, de cores novas, de sorrisos e paisagens.
Sentei-me no alpendre do bairro onde vivo em Dili e penso: "Isto é demais para mim". Uma frase de alguém pula da memória: "Alguns professores que estão cá há já algum tempo têm um brilho diferente nos olhos". É o brilho que eu quero nos meus olhos. Leva-me àquele par de páginas mágicas do Sidharta (Herman Hesse) em que o personagem atinge o Nirvana e ... "todas as imagens" se reflectem nos seus olhos, como a paisagem nas águas paradas da ribeira.
Viver cada instante desta realidade de forma sincera implica uma violência emotiva que me destrói. Ou melhor, que me desestrutura. É o caminho para o Nirvana. O Nirvana como desestruturação absoluta: a perda de identidade e a fusão com o meio.
Por outro lado, há um estrutura racional onde já não vejo sentido, e principalmente, fim. Parece já não haver energia para construir uma explicação do mundo dentro de mim. Seria "só mais um modelo do mundo" ... incompleto ou incorrecto.
Finalmente, há uma frase várias vezes repetida por aqui, é a de Witgenstein ou Heidegger que diz que "os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem". E, claro está, tudo isto é linguagem. Que sou se não as minhas palavras?
Quer a perspectiva racional quer a difusa (Nirvana) são só partes de mim, da minha linguagem, dos meus conceitos, dos meus estereótipos. Tudo bem longe da verdade/realidade.
Resta-me o espaço difuso entre o agnosticismo, que diz que "é impossível EU (ser humano) alcançar/explicar a verdade/realidade" e o agnosticismo extremo, que diz que a verdade/realidade é absolutamente inalcançável/inexplicável. Sendo que este agnosticismo extremo é quase idêntico a considerar que a verdade/realidade não existe.

O prazer que obtenho em absorver o mundo é tão grande que não vejo sentido em estruturá-lo ou analisá-lo ou explicá-lo. Só vejo sentido nesse prazer de absorção, de fusão com a realidade.

Aqui, em Timor, há um silêncio que me invade.


08 abril, 2007

A Leste no Paraíso

4 dias no extremo Leste de Timor Leste.
A visita a Jaco, a ilha a Este de Timor.
A visita a um orfanato onde se ouvia permanentemente cantar... música de Páscoa: PAZ!
Acho que este blog vai morrer muito rapidamente. Nem dentro de mim consigo sintetizar o que vivo, quanto mais pô-lo em palavras.

31 março, 2007

Ataúro

Ataúro é uma ilha satélite de Timor, mesmo em frente a Dili. Foram 2 horas de ferry-boat desde o porto de Dili, 10 minutos de carinha e chegamos às nossas cabanas de uma Eco-Village mesmo em frente à praia. A praia era só nossa: corremos, jogamos futebol, vimos corais, ouvimos o Tóqué, um lagarto, a gritar tóóóóquéééé bem alto durante a noite.
Lembro-me de estarmos a discutir temas sérios e de eu estar cansado. Fiz um apelo ao meu querido "boicote ao raciocínio estruturado". A conversa estruturada continuou e eu ia adormecendo... sem dar por ela o wiskey local (General) e a cerveja (Tiger) começaram a falar nas vozes dos meus companheiros.
Nessa noite nasceu o movimento religioso "tóquéfixe". Desde que cheguei a Timor que comecei a dizer "que fixe!" a todo o momento, e ainda não parei. Daí vem também o nome do movimento. Dissemos o "ohm" do nosso movimento na praia: expiração prolongada com "tóquéééééé" e inspiração rápida com "fixe". Escrevemos os 8+1 mandamentos do movimento, sendo que o 4º rezava assim: "O referencial do movimento será a absoluta arbitrariedade". E assim o movimento foi criado em ambiente de absoluto non-sense! Sendo que, como sempre, uns se sentiram mais livres do que outros.
Ainda tomamos banho durante a noite com a lua bem cheia e a água quente. Alguns ficaram a ver o nascer do sol no mar... eu fui dormir.

Deixo-vos algumas fotos do fim de semana paradisíaco: http://luisramos.net/pictures/IlhadeAtauro

29 março, 2007

Rotina

Aos poucos vou conhecendo a rotina que me vai levar ao fim da minha estadia em Timor.
As aulas, os alunos, a faculdade, os restaurantes, as gentes do bairro onde vivo, os Timorenses, a praia paradisiaca com água a 30 graus...
Hoje comprei uma guitarra chinesa. 47 dolares investidos em terapia musical. 30 minutos de guitarra souberam-me a catarse. Tenho de fazer desporto...
Os comícios já começaram e as eleições aproximam-se. No bairro aprende-se política... e as várias faces da democracia.

26 março, 2007

As aulas

Hoje foi o primeiro dia de aulas. Depois de 6 horas na cama, 2 horas de sono, e as aulas por preparar, aparecem-me à frente mais de 20 cabeçinhas sorridentes. Têm, em média, 20 anos.
Revelei-me um performer. Lembro-me de fazer malabarismo com os marcadores e de lhes explicar o que era o malabarismo. Os alunos mal compreendem o meu português, tenho de falar devagar e repetir a mesma coisa várias vezes. Eles querem saber sobre mim, sobre o que faço, o que fiz, especialidade, família, namorada, etc. Eu quero falar sobre o sistema binário e hexadecimal: o início da disciplina de arquitectura de computadores.
Infelizmente a confusão dos sonos não me permitiu usufruir o dia.

25 março, 2007

Caixa Aberta

Não costumo pensar nos cheiros das coisas. Nem pensar no que sinto ao cheirá-las. Mas hoje tivemos uma boleia numa carrinha de caixa aberta a caminho de Dili. A noite tinha acabado de cair (fomos à praia ver o pôr do sol) e estavam 30 graus (ou mais). À medida que íamos passando por campos, árvores, mar, churrascos, sei lá... senti-me um Jean Batiste Grenouille (a personagem d'O Perfume) agarrado a um pedaço de ferro ferrugento.

Eu quero ser Timorense!

Conhecem o estigma dos antropólogos que ganham tendências "integrativas" durante as suas visitas de campo?
Aqui em Timor sinto-me um antropólogo cultural. Ser Timorense é ser de uma raça diferente, é ser de uma cultura diferente, é ser melhor!
Eis algo que eu procurava, axioma base de mim:
O desconhecido, o outro, o vago... é múltiplo e melhor do que eu...

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!