28 fevereiro, 2008
27 fevereiro, 2008
De Timor a' India: o mundo entre os dedos
Um dia decidi sair do bairro dos professores sozinho e nao apanhar taxi. Decidi ir ver cada cara e casa dessa cidade, sem complexos, sem medo.
Acabei encharcado de chuva e debaixo de uma palhota com dois velhos que esperavam o tempo passar com vista para o mar. Ainda me lembro de sentir as gotas nas pocas e nas varitas da cabana.
Timor nao esta nos restaurantes, professores ou embaixadores. Timor esta em cada maozada de terra que nos leva a essa gente de sorrisos.
Nesse dia enchi a mao dessa terra e senti-a entre os dedos.
Hoje vou fazer o mesmo aqui em Varanasi, no norte da India.
Acabei encharcado de chuva e debaixo de uma palhota com dois velhos que esperavam o tempo passar com vista para o mar. Ainda me lembro de sentir as gotas nas pocas e nas varitas da cabana.
Timor nao esta nos restaurantes, professores ou embaixadores. Timor esta em cada maozada de terra que nos leva a essa gente de sorrisos.
Nesse dia enchi a mao dessa terra e senti-a entre os dedos.
Hoje vou fazer o mesmo aqui em Varanasi, no norte da India.
25 fevereiro, 2008
a chorar pelos quatro cantos do mundo
"esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena"
23 fevereiro, 2008
Isto e' o passado!
Imaginem que já nao sou indiano... sobre a realidade e' a única coisa que vos sei dizer hoje: imaginem...
Ontem, deste lado do mundo, vi umas fotos antigas de gentes simples. Depois, deste lado do mundo, andei a passear pelo sitio onde essas gentes viveram. Depois, deste lado do mundo, pensei a andar: "Isto e' o passado! Isto e' o passado! Eu estou no passado! A vida e' um passeio pelo passado! Tudo e' passado!".
A vida e uma fotografia a preto e branco.
E, dos dois lados do mundo, quando os dias são muito tristes, o melhor e' planear. Brincar ao futuro, ao faz de conta. Sem sair do passado.
11 fevereiro, 2008
Ai timor...
O lider dos maus (e o heroi das criancas), Reinado, apanha o lider dos bons (e o heroi dos aussies), Ramos, a fazer jogging...
Segundo me lembro, a casa do Ramos eh bem perto da Dona Fina, isto eh, a cena deve ter sido ali na praia para onde as gentes vao. Mas foi la para as 7 da manha.
O Reinado morreu. Se o Ramos morre eh que eh bem pior... vamos todos cantar com os cinco do oriente.
Considero abismal a dificuldade de analise da situacao. Quem fez o queh e para queh? E isto em timor, pais pequeno e jovem. Para mim eh um excelente exemplo das enormes dificuldades da analise politica em geral.
Quem fez o que, para que e porque? E vale Bush, Chavez, Socrates, Soharto, Mandela, ate' o Ghandi (cujo museu fui ver ontem).
Eh impossivel saber. Entender a politica eh mais dificil que entender a propria natureza humana porque a primeira eh uma consequencia a muito longo prazo da segunda. O que me leva ao: se El Che tivesse lido Freud nao teria havido revolucao.
Segundo me lembro, a casa do Ramos eh bem perto da Dona Fina, isto eh, a cena deve ter sido ali na praia para onde as gentes vao. Mas foi la para as 7 da manha.
O Reinado morreu. Se o Ramos morre eh que eh bem pior... vamos todos cantar com os cinco do oriente.
Considero abismal a dificuldade de analise da situacao. Quem fez o queh e para queh? E isto em timor, pais pequeno e jovem. Para mim eh um excelente exemplo das enormes dificuldades da analise politica em geral.
Quem fez o que, para que e porque? E vale Bush, Chavez, Socrates, Soharto, Mandela, ate' o Ghandi (cujo museu fui ver ontem).
Eh impossivel saber. Entender a politica eh mais dificil que entender a propria natureza humana porque a primeira eh uma consequencia a muito longo prazo da segunda. O que me leva ao: se El Che tivesse lido Freud nao teria havido revolucao.
09 fevereiro, 2008
08 fevereiro, 2008
I'm in ... New Delhi
Ainda me lembro do primeiro mail que mandei de Timor a dizer "I'm in". Ali tinha mesmo a sensacao de entrar num mundo ah parte. A sensacao repete-se em Delhi... I'm in!
As primeiras 24 horas de New Delhi dizem-me que esta cidade eh uma mistura entre Dili e Bangkok mas, conforme previsto, com cheiro a caril :-)
Uma maravilha absolutamente inexplicavel.
Tenho de arranjar uma maquina fotografica de qualidade... aqui qualquer um eh um grande fotografo. Tiradas em 30 minutos de passeio:
As primeiras 24 horas de New Delhi dizem-me que esta cidade eh uma mistura entre Dili e Bangkok mas, conforme previsto, com cheiro a caril :-)
Uma maravilha absolutamente inexplicavel.
Tenho de arranjar uma maquina fotografica de qualidade... aqui qualquer um eh um grande fotografo. Tiradas em 30 minutos de passeio:
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05 fevereiro, 2008
Gute Nacht
Amanhã há aviões e até breves. Por isso, boa noite:
Thomas Quasthoff canta o Gute Nacht do Winterreise de Schubert.
Thomas Quasthoff canta o Gute Nacht do Winterreise de Schubert.
17 janeiro, 2008
Índia. Religião, Filosofia e Sociedade. Um prelúdio...
Dia 7 de Fevereiro o avião aterra em Nova Delhi, New Delhi... I should start posting in English (with indian accent).
Para que é que vou, onde vou, quanto tempo, o que vou fazer, como vou fazer... são perguntas sem respostas, que nem sequer é necessário aparecerem durante a viagem.
Deixo a obsessão das respostas. do sentido, da razão, de deus para vocês... deste lado do ecrã vive-se sem isso.

Religião: os 1000 deuses
No hinduísmo existem milhares e milhares de deuses. Há deuses para tudo... e para nada. Um resumo de uma horita de deambulação internáutica. É uma história gigantesca que começa mais ou menos assim...
Brahman é o espírito cósmico supremo que é incognoscível pelo homem. Brahman é o princípio divino não personalizado e neutro.
Os três principais deuses do hinduismo (a trindade Hindu) são considerados aspectos de Brahman: Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva(o Destruidor).
As suas esposas são respectivamente:
- Brahma tem Saraswati (deusa do conhecimento, das artes e dos rios)
- Vishnu tem Lakshmi (deusa da riqueza, fortuna, amor e beleza)
- Shiva tem Sati e depois Durga/Parvati (mãe de Ganesha, o famoso cara de elefante)
Dependendo do ramo do hinduísmo que seguimos, cada um destes deuses é mais ou menos adorado. Todos têm várias encarnações (avatars) e também vários nomes...
Filosofia: as 4 qualidades
Na filosofia aparecem no topo os Purusharthas que são as quatro qualidades ou os quatros objectivos da vida humana: Kama (prazer sensual ou amor), Artha (poder ou riqueza), Dharma (moralidade ou justiça) e Moksha (liberdade ou libertação do ciclo de encarnação).
Sociedade: as 5 castas
Na sociedade aparecem no topo as castas descritas nas escrituras hindu: Brahman (padres e professores), Kshatriya (guerreiros e politicos), Vaishya (comerciantes e artesãos), Sudra (operários) e Dalit (os intocáveis, os que não são ninguém).
Novo no blog: fotos do melhor do sudeste asiático.
Para que é que vou, onde vou, quanto tempo, o que vou fazer, como vou fazer... são perguntas sem respostas, que nem sequer é necessário aparecerem durante a viagem.
Deixo a obsessão das respostas. do sentido, da razão, de deus para vocês... deste lado do ecrã vive-se sem isso.

Religião: os 1000 deuses
No hinduísmo existem milhares e milhares de deuses. Há deuses para tudo... e para nada. Um resumo de uma horita de deambulação internáutica. É uma história gigantesca que começa mais ou menos assim...
Brahman é o espírito cósmico supremo que é incognoscível pelo homem. Brahman é o princípio divino não personalizado e neutro.
Os três principais deuses do hinduismo (a trindade Hindu) são considerados aspectos de Brahman: Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva(o Destruidor).
As suas esposas são respectivamente:
- Brahma tem Saraswati (deusa do conhecimento, das artes e dos rios)
- Vishnu tem Lakshmi (deusa da riqueza, fortuna, amor e beleza)
- Shiva tem Sati e depois Durga/Parvati (mãe de Ganesha, o famoso cara de elefante)
Dependendo do ramo do hinduísmo que seguimos, cada um destes deuses é mais ou menos adorado. Todos têm várias encarnações (avatars) e também vários nomes...
Filosofia: as 4 qualidades
Na filosofia aparecem no topo os Purusharthas que são as quatro qualidades ou os quatros objectivos da vida humana: Kama (prazer sensual ou amor), Artha (poder ou riqueza), Dharma (moralidade ou justiça) e Moksha (liberdade ou libertação do ciclo de encarnação).
Sociedade: as 5 castas
Na sociedade aparecem no topo as castas descritas nas escrituras hindu: Brahman (padres e professores), Kshatriya (guerreiros e politicos), Vaishya (comerciantes e artesãos), Sudra (operários) e Dalit (os intocáveis, os que não são ninguém).
Novo no blog: fotos do melhor do sudeste asiático.
Às voltas com Foucault
Quando escrevi o último texto lia o "Nietzsche" do Deleuze e tinha por perto os livros do Nietzsche para consulta. A desmistificação foi o exorcismo de Nietzsche: fechei os livros todos e guardei-os a um canto.
Com Foucault a história é diferente. Depois da "História da Loucura" vieram "As Palavras e as Coisas". Se no primeiro a prosa sempre difícil de Foucault (quase tão difícil como os aforismos de Nietzsche) foi vencida, no segundo veio muita frustração mas ficou, vejo agora, a semente.
Num alfarrabista (que devia ter fotografado) de Vina del Mar, no Chile, comprei três livrinhos de Foucault de nem 100 páginas cada: três das (famosas) conferências (ou aulas) que ele deu no Collége de France.
Apesar de serem em castelhano, estes livros para mim foram, já em Portugal, a chave para Foucault.
Na "História da Loucura" e depois na "Ordem do Discurso", Foucault diz que a loucura e a perversão não existem senão por serem uma oposição da "sanidade mental estabelecida" ou da "boa moralidade". Por outro lado diz que esses (e outros) espaços de marginalidade no limite do normal, só existem como negação do esquema de normalidade.
Se por um lado Foucault fala de mecanismos de controlo do discurso (ver texto "Macacos de Imitação") sobre os quais estes esquemas de normalidade sobrevivem, por outro, fala-nos das instituições que vigiam e fazem vigorar as suas fronteiras, nomeadamente as instituições de segurança pública e as instituições psiquiátricas, pondo os polícias e os psiquiatras no mesmo grupo. Estas fronteiras, constituídas pelos fenómenos de marginalidade, são _criadas_ pelo próprio esquema de normalidade. Por outras palavras, um louco ou um assassino só o é porque alguém o julga assim.
Eu _acredito_ mesmo nisto! Julgo a normalidade uma perversão e encaro fenómenos como a depressão, o alcoolismo, a delinquência, a droga, a prostituição, a ?guerra?, a psicose, a homossexualidade (o Foucault era gay), etc, etc, etc, como consequências naturais (ou partes integrantes) do esquema social em que vivemos e NUNCA como perversões a um sistema saudável. O moralista é SEMPRE tão perverso como o moralizado. A perversão faz parte do sistema, a perversão é o sistema, o sistema é perverso.
Nietzsche já nos tinha dito que o polícia é tão imoral como o pior dos assassinos.
Foucault acrescenta que o psicólogo/psiquiatra é tão louco como o pior dos esquizofrénicos (Foucault é formado em psicologia).
(a ver: o filme "Tropa de Elite" (Brasil) sobre polícias loucos e o indescritível "Os Mestres Loucos" de Jean Rouch com loucos tão saudáveis)
Com Foucault a história é diferente. Depois da "História da Loucura" vieram "As Palavras e as Coisas". Se no primeiro a prosa sempre difícil de Foucault (quase tão difícil como os aforismos de Nietzsche) foi vencida, no segundo veio muita frustração mas ficou, vejo agora, a semente.
Num alfarrabista (que devia ter fotografado) de Vina del Mar, no Chile, comprei três livrinhos de Foucault de nem 100 páginas cada: três das (famosas) conferências (ou aulas) que ele deu no Collége de France.
Apesar de serem em castelhano, estes livros para mim foram, já em Portugal, a chave para Foucault.
Na "História da Loucura" e depois na "Ordem do Discurso", Foucault diz que a loucura e a perversão não existem senão por serem uma oposição da "sanidade mental estabelecida" ou da "boa moralidade". Por outro lado diz que esses (e outros) espaços de marginalidade no limite do normal, só existem como negação do esquema de normalidade.
Se por um lado Foucault fala de mecanismos de controlo do discurso (ver texto "Macacos de Imitação") sobre os quais estes esquemas de normalidade sobrevivem, por outro, fala-nos das instituições que vigiam e fazem vigorar as suas fronteiras, nomeadamente as instituições de segurança pública e as instituições psiquiátricas, pondo os polícias e os psiquiatras no mesmo grupo. Estas fronteiras, constituídas pelos fenómenos de marginalidade, são _criadas_ pelo próprio esquema de normalidade. Por outras palavras, um louco ou um assassino só o é porque alguém o julga assim.
Eu _acredito_ mesmo nisto! Julgo a normalidade uma perversão e encaro fenómenos como a depressão, o alcoolismo, a delinquência, a droga, a prostituição, a ?guerra?, a psicose, a homossexualidade (o Foucault era gay), etc, etc, etc, como consequências naturais (ou partes integrantes) do esquema social em que vivemos e NUNCA como perversões a um sistema saudável. O moralista é SEMPRE tão perverso como o moralizado. A perversão faz parte do sistema, a perversão é o sistema, o sistema é perverso.
Nietzsche já nos tinha dito que o polícia é tão imoral como o pior dos assassinos.
Foucault acrescenta que o psicólogo/psiquiatra é tão louco como o pior dos esquizofrénicos (Foucault é formado em psicologia).
(a ver: o filme "Tropa de Elite" (Brasil) sobre polícias loucos e o indescritível "Os Mestres Loucos" de Jean Rouch com loucos tão saudáveis)
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