29 dezembro, 2007

Aqui me encontrarás... no papel, nas ideias ou no território

o escrever que vai continuar
Leio estes textos e encontro-me, noutro: não sou eu. Fica esta comunicação com o mim.
Entre o eu e o mim jaz um amigo. Entre mim e os textos estão os outros.
Falo aqui para mim e para ti porque nas palavras sonoras que me saem saem explicações desnecessárias.
No meu lápis me encontrarás. Mas a solidão mata-se na fraternidade, no calor do desnecessário.

desmistificando nietzsche
Idolatrar o iconoclasta é como desejar sexualmente a professora.
Sou um aluno da secundária a quem deram um tópico de doutoramento.
Ou para nietzsche, como ser criança se sou camelo pequeno e leão fraco?

O grande homem diz a zaratustra, com grande ressentimento, que não quer morrer.
Que digo eu/ninguém? O mesmo que o asceta ou niilista: que também não quero morrer.
A professora marca como trabalho para casa: na próxima aula vamos todos chegar com vontade de morrer.
Agora entendo porque a desejo. É o seu poder.
Está decidido, me quedo con ella, dioniso sin nietzsche.

o mapa não é o território
E nos domínios do palpável adiro à moda dos viajantes: locais onde dormi

12 dezembro, 2007

Vinho e Nietzsche, mas com Sol

Parece que o fogo posto, ou fátuo, acabou - na casa do Neruda a olhar o pacifico que é, em muitos sítios, tão igual ao atlântico. Oceanos, momentos, pessoas, ideias, sentidos e sentimentos... tudo se repete... fica o sabor das coisas, como no vinho. Viver é tragar vinho. Foram 3 meses de embriaguez. E no fim só aquele sabor entre a língua e o palato, entre o pensar e o sentir, entre o eu e os outros - entre as palavras e as coisas há um sabor aveludado. É aqui que me abandono...

Vendedores ambulantes há muitos e é simples a indiferença emocional do "no, gracias". Tinha a mão naquela posição em que os actores a põem para parecer deficientes e tremia. Ao passar vi o montão de rebuçados no colo. A mão tremia e alguns metros depois de passar, olhei para trás e vi o trabalho de precisão do por cada um dos rebuçados dentro de um saco fininho. Sigo caminho, mais uns metros, olho para trás, e ele satisfeito com o primeiro rebucado dentro do saco fininho a tremer. Invadiu-me um arrepio e vontade de chorar. E olho outra vez para trás, mas a emoção passou - rápido demais. E nesse instante entendo que aquilo me dá prazer. Olho para trás para ter prazer... olho para trás para ter prazer... para ter prazer... o altruismo nao existe? Pois nao? Outra vez?
Quem mais poderia encontrar neste meu egoísmo emocional - inconsciente que saltou - senão Nietzsche? Vim ä america do sul falar de Nietzsche com Foucault? O regeaton vem de alguma loja perto e ao olhar para o outro lado da rua vejo Nietzsche louco e o seu cavalo pintado - mas não está a chover! O sol raia e ele, em tronco trôpego nu, dança regeaton com uma mina mulata: paum! paum! paum! Do seu bigode gigante chega-me um sorriso paternal.

Já bem no fim do moleskine, viro a página e leio uma frase que escrevi há 3 meses na Venezuela:
"Quando um homem fala, fala também a sua ignorância que o condena ao fracasso (a ignorância vive nas palavras). Quando um homem ouve, é a ignorância dos outros que o invade."

Y asi me callo...

11 dezembro, 2007

Chavez, Neruda e uma pistola

Dois assassinos, o da direita a duas maos:

Ao ver esta capa de jornal (com o Chavez) lembro imediatamente a teoria da inexistencia de criatividade. Na biblioteca de babel ha milhoes de livros que falam de um tal de TUTANKABRON e de uma mumia bolivariana encontrada na venezuela, e de todas as variantes possiveis desta historia. A biblioteca de babel deve estar cheia de muito bom humor como este.

Em baixo: a casa do poeta, a estatua do poeta, tudo o que eu trago e nas minhas costas o sol e o mar.

10 dezembro, 2007

Samba em Preludio No. 17: Baden Powell vs Dotzaeur

Decidi comecar a tocar violoncelo ha 7 ou 8 anos quando ouvi a Sofia tocar o estudo 17 do Dotzaeur (um dos primeiros estudos para o vibrato). A melodia é...

Curiosamente, o Baden Powell conta que o Vinicius o acusou de plagio de Chopin no "Samba em Preludio": "Ah, nao eh plagio? Entao o chopin esqueceu de escrever essa".

Nao era Chopin, era Dotzaeur. Ou a memoria me engana muito ou as 4 primeiras notas (com ritmo muito semelhante) do samba em preludio e do estudo 17 de Dotzaeur sao iguais. Depois o estudo de dotzaeur tem umas duas ou tres notas a mais. Depois as musicas voltam a ser iguais por mais 3 ou 4 notas. Um pouco mais à frente as notas sao diferentes mas ainda se ouvem dois ou tres acordes iguais.

Independentemente da semelhanca, a magia esta nas duas...

Samba em Preludio:

Estatisticas Finais

Foram 88 dias de viagem em 10 paises.

Venezuela - 8 dias (Caracas, Puerto Colombia, Merida, Barinas)
Colombia - 9 dias (Cucuta, Bogota, Cali, Pasto)
Ecuador - 8 dias (Quito, Puerto Lopez, Montanitas, Guayaquil)
Peru - 16 dias (Mancora, Trujillo, Lima, Ica, Cuzco)
Bolivia - 8 dias (Copacabana, La Paz, Cochabamba, Santa Cruz)
Paraguay - 1 dia (Ciudad del Este)
Brasil - 16 dias (Iguazu, Sao Paulo, Rio de Janeiro, Floripa)
Uruguay - 4 dias (Punta del Este, Colonia del Sacramento)
Argentina - 7 dias (Buenos Aires, Mendoza, Uspallata)
Chile - 10 dias (Santiago, Pichilemu, Viña del Mar, Valparaiso, Isla Negra)

Foram umas 40 camas/pousadas e outros tantos autocarros.
Estive 350 horas dentro de um transporte: 4 horas de viagem por dia.

As despesas da viagem (em resumo) foram:
350e (voo de ida) + 720e (primeiro mes) + 855e (segundo mes) + 950e (terceiro mes) + 400e (voo de regresso) = 3275e

Personagens (listagem em massa)

A viagem esta a acabar e aproveito estes dias mortos antes do regresso para registar as coisas que sei que vao desaparecer da memoria (ou do interesse) mal aterre na lusitania...

Aqui fica uma lista de pessoas com quem falei nos ultimos 3 meses, digamos ... mais de meia hora:

Venezuela:
- manuel (ven)
- condutor do carro do tour (ven)
- mary (irelanda)
- ian (irelanda)
- chinesa que tambem ia no tour (china)
- chefe da aldeia que o tour visitou (ven)
- ajudante do chefe (ven)

Colombia:
- 2 vendedores de bilhetes em Cucuta (col)
- diego (brasil)
- luciano (argentina)
- 2 yiftachs (israel)
- o londrino (inglaterra)
- o ingles que vive na australia (inglaterra)
- a australiana (australia)
- o argentino de guia igual ao meu (argentina)
- o drogado (col)
- 2 colombianas de metro e meio (col)
- o japones de cali (japao)

Ecuador:
- adriana (ecu)
- roberto (ecu)
- o irmao da adriana (ecu)
- a mae da adriana (ecu)
- a empregada da mae da adriana (ecu)
- jacobo (espanha)
- professor de surf (ecu) - bananas assadas na areia!!!
- a quebecoise (canada)

Peru:
- 3 italianos (italia)
- o professor de fisica em paris (franca) - passei 3 dias com ele e ja nem me lembro como se chama!
- a alema (alemanha)
- o lucho (venezuela)
- o ricardo (venezuela)
- o julio andrade (peru)
- o professor de surf (peru)
- ruben cueva (peru)
- o guia das ruinas em trujillo (peru) - personagem bizarra
- barach (israel)
- claudia (peru)
- alex (peru)
- lissette (peru)
- lisa (alemanha)
- luis, avo da claudia (peru)
- pio, o basco (espanha)
- enrique (peru)
- esteban (col)
- sergio (col)
- tito guitarrista (peru)
- amiga do enrique (venezuela)
- monica (col)

Bolivia:
- 2 tugas do grupo de 5 (portugal!)
- dimitri (belgica)
- a alema tresloucada (alemanha)
- a israelita (israel)
- o australiano que ja fez africa do sul-egipto em bicicleta (australia)
- o vendedor de guitaras que toca charango (bol)
- o frances que joga cartas (franca)
- monsieur wailly (franca, ilha da reuniao)
- madame wailly (franca, ilha da reuniao)
- o alemao a quem dei uma aula de musica brasileira (alemanha)

paraguay:
- bruno (brasil)

brasil:
- o australiano louco que toca gipsy jazz (australia)
- 15 dos muitos familiares (helena, carlos, tia nena, mariana, carlao, caca, anibal, david, luciana, daniela, claudete, maria, arnaldo, jorge e rita)
- 2 brasileiras do hostel (brasil)
- o louco de jersey no hostel (inglaterra)

Este eh o ponto de excesso de carga... social. A partir daqui a interaccao baixou muito... ainda faltava um mes para o fim da viagem.

- jason (usa)
- alice (brasil)
- o professor de surf (brasil)

Uruguay:
- theo (franca)
- rogerio (brasil)

Argentina:
- sol (arg)
- camila (arg)
- xavier (espanha)
- miguel (chile)
- jesus (arg)

Chile:
- inda (inglaterra)
- marcelo e as suas duas amigas (chile)
- 2 holandeses (holanda)
- a dona da loja de surf (chile)
- a basca (franca)
- o jornalista de valparaiso (chile)

Sao quase 100 personagens. Todos eles tem uma historia, umas mais interessantes, outras menos, algumas ja contei, outras ja nem me lembro... e ha tambem os personagens que ja esqueci.

Devia ter feito um blog da viagem na asia... lembrei-me agora de um americano todo hippie que vivia na guatemala e que viajava pela tailandia. Jantamos juntos em Bangkok... o personagem estava numa cadeira de rodas... sozinho.

Sotôr

Se viajar, nao geograficamente, fosse tao facil como comprar bilhetes!
Para quë a literatura se temos a vida real?
Um blog da familia:
http://umascoisasimples.blogspot.com/

Lonely Planet, o guia turístico

Fazer esta viagem sem o Lonely Planet seria bem diferente. É um guia turistico fantástico mas, infelizmente, feito para gringos (americanos). Fica a critica que lhes mandei:

south america on a shoe string, 2007 english edition

These are my constructive comments about your guide:

-> ENGLISH - keep it simple!
Many people who travel with the english LP are non native speakers. I think you should keep your english simple by avoiding expressions and words that may be difficult for non native speakers. I learned the meaning of shabby and quirky with LP. Do you really need to use these words? :-)

-> SECURITY - don't be such a chicken!
I read "There are potential dangers to travel in SA...". I would say "there are potential dangers in being alive" :-)
I think it's all about attitude. And LP attitude is an "being afraid and cautious" attitude... relax, south america is not dangerous.

-> DRUGS
You don't recommend hitchhiking but you do not discourage the use of drugs. Well, I think you should, specially in SA where so many young gringos are doing drugs... its not the gringo trail anymore, its the cocaine trail. I've seen too many junkies travelling with LP. Is this what LP wants as its image?

-> PRICES
well, its impossible to keep updated here but you are 20% under the prices pretty much everywhere except in chile and Brazilian bus, where you are 40% under the correct price.

-> DRINKING - don't be such a gringo
While you always put a good number of (local) restaurants in town, LP ALWAYS puts the gringo places for drinking. I think you should stop listing Irish pubs in south America, that's ridiculous for a "independent travellers guide". You should list the places the locals are going to.
Moreover, I think you should avoid all those posh places I have seen listed in LP (I know you have to adapt to the readers) and GO UNDERGROUND!!!

-> ADVENTUROUS ATTITUDE
I think travelling in SA is easy and safe. So, I find a bit weird when I see the LP writer trying to convince the reader he is an adventurer. You could be more sober on this. My parents could travel in SA with no problem...

Hope this helps,
Luis

09 dezembro, 2007

Pichilemu, Chile

Macacos de Imitação

Hoje falo-vos de como o Dawkins se inspirou no Foucault e este nos estruturalistas. De criatividade e de globalização. De macacos de imitação.

Dawkins
Há já uns anos que entrei neste beco filosófico sem saída. Em Franca no meu cubículo de 18m2 de Antibes. Dawkins e o seu gene egoísta foram o pórtico. Os genes copiam-se e os "memes" também. Dawkins apresenta no seu livro "O Gene Egoísta" a sua ideia de que os genes são entidades que nos usam a nos, seres humanos, para sobreviver. Ha uma troca de entidades. O ser humano deixa de ser a entidade central e passa a ser uma entidade auxiliar de uma teoria que é centrada nos genes. Nós somos maquinas de copia e transmissão de genes, que nos usam, como maquinas, para sobreviver.
Dawkins aplica esta teoria a outro contexto: as ideias. Define os memes como unidades de cultura, em vez de unidades genéticas (como os genes). Os memes são ideias que são transmitidas, tal como os genes. Sendo que as ideias são, novamente, as entidades centrais da teoria. Nos somos maquinas de copia e transmissão de ideias.

Foucault
Foucault, inspirado pelos estruturalistas, já tinha dito o mesmo que Dawkins.
Na filosofia a questão começou com os linguistas. Os estruturalistas falam de um sistema que fala por nos. Nos somos maquinas de repetição que fazem o sistema seguir, tal como os mecanismos genéticos. Os estruturalistas esquecem o individuo e falam de uma cultura que vive por si. Entidade mais importante que o individuo.
Neste caso, são as ideias que são transmitidas: unidades de discurso e cultura. Aprendemos os discursos do sistema através da educação (numa perspectiva abrangente do termo) e limitamo-nos a misturar e repetir tudo o que aprendemos/absorvemos.
Foucault, mais linguista que os próprios estruturalistas, esquece o sistema e fala apenas de indivíduos e discursos. Discursos aprendidos e repetidos por indivíduos que transmitem elementos de cultura.

Dawkins vs Foucault
O que Dawkins faz no seu gene egoísta é copiar a ideia de Foucault e apresentá-la de uma forma mais simples e, quanto a mim, menos interessante.
Dawkins ignora a palavra discurso, que Foucault tanto gosta, e fala de ideias. Já aqui esquecendo toda a complexidade da linguística, que, quanto a Foucault, é onde jaz toda a mecânica da transmissão.
Dawkins fala de memes como unidades discretas de cultura. Foucault fala de discursos, linguista e de emaranhados inqualificaveis de unidades (sequências, series, contínuos) de cultura.

Os mecanismos da imitação
Dawkins diz que os memes que são passados tem de ser como os genes, aptos. Os mais aptos passam. Foucault fala dos mecanismos de controlo do discurso e divide-os em vários tipos. Foucault fala, por exemplo, de tabus, rituais associados ao discurso, conceito de loucura, etc.

Criatividade
Neste contexto podemos usar a analogia de Dawkins (genes/memes) para falar de criatividade. Um ser humano é tão capaz de criatividade (em termos de memes/ideias) como a natureza (em termos de genes/fenotipos).
Aqui vamos progredindo nas possibilidades infinitas do discurso (viajando na biblioteca de babel). A criatividade não existe. A criação é a chegada a novos espaços possíveis de discurso, a pontos não utilizados (desconhecidos) da biblioteca de babel. Sempre sob a permissao dos mecanismos de controlo do discurso de que Foucault fala.

Volatilidade de Significado
Por outro lado, é necessário ter em conta que um mesmo texto, pode ter significados diferentes em contextos diferentes. Voltamos a Borges e ao seu Quixote de Menard. Este ponto é interessante mas não fundamental para a questão.

Macacos de Imitação!
A síntese: tudo é copiado e nós somos máquinas de cópia. Desde que aprendemos a falar até quando aprendemos uma profissão. Passando pelos sonhos e projectos de vida, por aquilo que fazemos no dia a dia, pelas frases que dizemos. As frases que dizemos. "As frases que dizemos". "As frases que dizemos" é uma frase repetida, que EU repito. Tudo o que digo, aqui e não só, é só uma repetição misturada de coisas que de alguma forma absorvi.

Ou Contadores de Anedotas
Por outras palavras (numa perspectiva mais Dawkinzesca), o conhecimento é como uma anedota, e nós os respectivos contadores. Se for boa é memorizada e repetida, senão, é esquecida. Nesta analogia, nós vivemos em emaranhados de anedotas. Os processos de selecção destas anedotas são complexos linguisticos e psicológicos.

Globalização
Um aspecto prático deste assunto é a globalização. A partir do momento em que existem meios de comunicação capazes de fazer passar discursos/culturas a nível mundial, os mecanismos de cópia, transmissão e selecção começam! Os discursos/culturas mais aptos sobrevivem, os outros extinguem-se! A competicao da seleccao natural dos memes agora é a nível mundial...
Seria agora o lugar para uma análise da cultura global que nos invade e a sua componente norte-americana... ou para vos falar da cultura da Bolivia como um animal que de repente tem de competir pela sobrevivencia com outro animal muito mais apto (dadas as condicoes globais) e acaba a beber coca-cola em vez de mascar coca, isto eh, extingue-se...

Ética
Como reagir a isto... no próximo episódio falo de defesa das nossas ideias, isto é, da utilização da crítica na defesa da máquina de transmissão de ideias que somos.